Thursday, August 21, 2008

Convenções para apresentação de trabalhos acadêmicos

Cid Ottoni Bylaardt

Os trabalhos deverão vir antecedidos de título, autor(es), disciplina e turma.

Originais

Apresentação. Os trabalhos devem ser entregues impressos, o texto em Word for WINDOWS, versão 6.0 ou mais recente, corpo 12, fonte Times New Roman, espaçamento 1,5. Página A4, margens 3, 3, 3, 3.

Estrutura. Obedecer à seguinte seqüência: Título; Autor; Disciplina; Turma; Texto; Referências bibliográficas (somente obras citadas no texto).

Qualquer menção ou citação de autor ou obra no corpo do texto, remetendo às referências, deve aparecer com o ano de publicação, inclusive as epígrafes.

Usar negrito para ênfase e itálico para palavras em língua estrangeira. Títulos de obras devem aparecer em itálico, letra maiúscula apenas no início da primeira palavra (ex: Flores da escrivaninha), e capítulos, contos, ou partes de uma obra devem ser apresentados entre aspas (ex: “O homem que sabia javanês”).

Referências bibliográficas. Devem ser dispostas em ordem alfabética pelo último sobrenome do primeiro autor e seguir a NBR 6023 da ABNT.


. Livro

SILVA, I. A. Figurativização e metamorfose: o mito de Narciso. São Paulo: Ed. UNESP, 1995.

. Capítulo de livro

MANN, T. A morte em Veneza. In: CARPEAUX, O. M. (Org.) Novelas alemãs. São Paulo: Cultrix, 1963. p.113-9.

. Dissertação e tese

PASCOLATI, S. A. V. Faces de Antígona: leituras e (re)escrituras do mito. 2005. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2005.

. Artigo de periódico

GOBBI, M. V. Z. Relações entre ficção e história: uma breve revisão teórica. Itinerários, Araraquara, n. 22, p. 37-57, 2004.

. Artigo de jornal

GRINBAUM, R. Crise no país divide opinião de bancos. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 mar. 2001. Dinheiro, p.3.

. Trabalho publicado em anais

PINTO, M. C. Q. de M. Apollinaire: permanência e transformação. In: XI ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL, 1996, João Pessoa. Anais... João Pessoa: ANPOLL, 1966. p. 216-18.

. Publicação On-line – INTERNET

TAVES, R. F. Ministério corta pagamento de 46,5 mil professores. O Globo, Rio de Janeiro, 19 maio 1998. Disponível em http://www.oglobo.com.br/. Acesso em 19 maio 1998.

Citação no texto. O autor deve ser citado entre parênteses pelo sobrenome, separado por vírgula da data de publicação (CANDIDO, 1999). Se o nome do autor estiver citado no texto, indica-se apenas a data entre parênteses: Candido (1999) assinala... Quando for necessário especificar página(s), esta(s) deverá(ão) seguir a data, separada(s) por vírgula e precedida(s) de p. (CANDIDO, 1999, p.543). As citações de diversas obras de um mesmo autor, publicadas no mesmo ano, devem ser discriminadas por letras minúsculas após a data, sem espacejamento (CANDIDO, 1999a) (CANDIDO, 1999b). Quando a obra tiver até três autores, indicam-se todos eles, separando os sobrenomes por ponto e vírgula (LEENHARDT; PESAVENTO, 1998), e quando tiver mais de três, indica-se o primeiro seguido de et al. (GILLE et al., 1960).

Citações de até 3 linhas vêm entre aspas, seguidas do nome do autor, data e página. Com mais de 3 linhas, vêm com recuo de 4 cm na margem esquerda, corpo menor (fonte11) e sem aspas, também seguidas do nome do autor, data e página. As citações em língua estrangeira devem vir em itálico.

· Citação direta com mais de três linhas

Paul Valéry (1991, p. 208) concorda com a definição de Mallarmé, mas lhe faz uma ressalva:

[...] esses discursos tão diferentes dos discursos comuns, os versos, extravagantemente ordenados, que não atendem a qualquer necessidade, a não ser às necessidades que devem ser criadas por eles mesmos; que sempre falam apenas de coisas ausentes, ou de coisas profunda e secretamente sentidas; estranhos discursos, que parecem feitos por outro personagem que não aquele que os diz, e dirige-se a outro que não aquele que os escuta. Em suma, é uma linguagem dentro de uma linguagem.

.· Citação direta com três linhas ou menos

É de Manuel Bandeira (1975, p. 39) o seguinte comentário: “a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”.

· Citação indireta

Tem-se na paródia, como afirma Linda Hutcheon (1985), a manifestação textualizada da auto-referência, do nível metadiscursivo da criação literária.

· Citação de vários autores

Não me estenderei sobre esse assunto, por considerá-lo devidamente discutido pelos marxistas clássicos (MARX, 1983, 1969; LENIN, 1977a; LUXEMBURG, 1978).

· Citação de várias obras do mesmo autor

Há nele uma diversidade de formas de trabalho; mas em geral subsumidas no capital, e não externas a ele e que resistem à sua expansão, consoante desejam certos partidários do campesinato, cujo exemplo maior é Martins (1979, 1980, 1984, 1986).

· Citação de citação

Para Vianna (1986, p. 172 apud SEGATTO, 1995, p. 214-215), “[...] o viés organicista da burocracia estatal e o antiliberalismo da cultura política de 1937, preservado de modo encapuzado na Carta de 1946.”

Notas. Reduzidas ao mínimo e colocadas no pé de página; as remissões para o rodapé devem ser feitas por números, na entrelinha superior.

Anexos e apêndices: Só quando absolutamente necessários.

Tabelas: Numeradas consecutivamente com algarismos arábicos e com títulos.

Figuras: As figuras, mesmo incluídas no texto, devem ser apresentadas à parte em arquivo-imagem, nos formatos: .bmp, .gif, .ipg, .jpg, .cdr, .pcx, ou .tiff.

Friday, May 09, 2008

A Pós-modernidade e a literatura
(Texto escrito por Gustavo Costa, Eli Castro e Cid Bylaardt)


Tópico 1: Que vem a ser "Pós-Modernidade"?
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Caro aluno: antes de você seguir a leitura desta aula, tente responder às seguintes perguntas:
O que você entende por “pós-moderno”?
Em que circunstâncias você já ouviu a expressão “pós-modernidade”?
Pare e pense um pouco, pesquise na internet ou em livros de arte, filosofia ou história, discuta com colegas se for possível, em seguida veja se o que você pensou a respeito relaciona-se com as considerações que serão feitas a seguir.
Considerações sobre o termo "pós-modernidade" na cultura ocidental
Para iniciar nossa aula, é de fundamental importância que trabalhemos com um conceito ou uma noção segura do termo Pós-modernidade. Paradoxalmente, é difícil “bater o martelo” e afirmar que o termo em questão signifique algo estável entre os estudiosos.
As duas últimas décadas vêm produzindo discussões acaloradas sobre o assunto; porém, o máximo a que se chegou foi a um depósito de conceitos duvidosos, imprecisos e frágeis.
O termo teve origem nos Estados Unidos e veio da área da sociologia e, de lá, passou para a arquitetura, artes plásticas, filosofia e, inevitavelmente, para a literatura. A primeira “confusão” já pode ser percebida quando se põe lado a lado Pós-modernidade e Pós-modernismo. Ambos os termos não podem ser confundidos porque apontam para direções contrárias.
O primeiro diz respeito a tudo que ocorreu depois das conhecidas vanguardas européias (futurismo, cubismo, surrealismo etc); já o segundo, ao contrário, tenta compreender o que se passa com o mundo das artes e das ciências (ou seja, com o mundo dos homens de hoje). Essa preocupação começou, mas ou menos, a partir da segunda metade do século XIX e se estende até os dias atuais.
Observação
A segunda “confusão” (no bom sentido, aqui) diz respeito ao prefixo “Pós”. Ora, quando se afirma que estamos na Pós-modernidade, é porque, de algum modo, a Modernidade já ficou para trás, já acabou.
Essa noção fica mais embaralhada ainda quando se dá a notícia de que, para a filosofia pós-moderna, uma das premissas de fundamental importância é a negação do tempo sucessivo e teleológico.
Marcos da era pós-moderna
Acontece que, ao se tentar teorizar e estabelecer marcos para o início da era pós-moderna, está-se, paradoxalmente, trabalhando como uma noção muito preliminar de tempo e de sucessão. Para complicar mais ainda, há teóricos que ponderam as idéias daqueles que pesquisam o pós-moderno chamando a atenção para o fato de que a modernidade ainda não acabou; ou seja: ainda estamos num período de execução dos projetos que marcaram o início do século XX. Como se percebe, há aí uma assimetria generalizada.
Entretanto, mesmo havendo uma chuva de conceitos, pré-conceitos e pseudo-conceitos (aqui não citamos nenhum deles, embora existam) sobre a noção de pós-modernidade, é possível elencar uma série de características notáveis na arquitetura, na sociologia, nas artes plásticas, na filosofia e, também, na literatura.

A pesquisadora brasileira Leyla Perrone-Moisés, em seu interessante livro Altas Literaturas, afirma: “De um modo geral, os traços considerados pós-modernos são os seguintes:
heterogeneidade, diferença, fragmentação, indeterminação, relativismo, desconfianças nos discursos universais, dos metarrelatos totalizantes (identificados como totalitários), abandono das utopias artísticas e políticas.
Esses traços se opõem aos da modernidade, que seriam: racionalismo, positivismo, tecnocentrismo, logocentrismo, crença no progresso linear, nas verdades absolutas, nas instituições”.
Observação
Por incrível que pareça (mesmo tendo apresentado uma série de características que, de algum modo, resolveriam a discussão sobre o que vem a ser a Pós-modernidade) ainda andamos “às cegas” no que diz respeito à nossa atual identidade cultural.
Estudiosos de várias áreas do conhecimento buscam respostas mais significativas, conceitos mais seguros e confiáveis; mas parece que ainda estamos longe de mapear todo esse novo estado de espírito e de vida do homem dos dias atuais (moderno, pós-moderno ou contemporâneo?). Eis o que fica: a inquietação.
Multimídia: Vídeo
Veja uma parte da entrevista do escritor Afonso Romano Santana (Clique aqui para visualizar) e fique atento ao que ele fala sobre a pós-modernidade.

Fórum
Anote as principais idéias sobre pós-modernidade, tanto da entrevista quanto do texto desta aula, e exponha suas idéias no fórum “Aula 5 - Modernidade em ruínas”. Espera-se que você dê sua opinião sobre o assunto e comente opiniões de seus colegas.

Teoria da Literatura
Aula 5 - O pensamento Pós-Modernona Literatura
Tópico 2: O pensamento filosófico pós-moderno
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Tendências da filosofia contemporânea
Descartes e Hegel
No âmbito do pensamento filosófico, a chamada “pós-modernidade” pode ser entendida como o momento de crise da racionalidade que servia de base à filosofia moderna, em seus três pilares: a consciência, a sistematicidade e a universalidade. Pilares cujas bases foram lançadas já por Descartes — com a idéia do Cogito, e que ganharam forma acabada com o pensamento absoluto de Hegel. Em seus pressupostos está a crença nos poderes ilimitados da razão para o conhecimento e liberdade humanas.
O que podemos chamar da crise da modernidade surge na forma de uma crítica radical a seus pressupostos. De formas distintas e sob aspectos diversos, podemos dizer que essa crise foi irradiada a partir de quatro pontos, na passagem do séc. XIX ao séc. XX. Nesses três pontos, podermos situar Nietzsche, Wittgenstein e Heidegger.

Nietzsche
Centrando suas suspeitas nas questões de sentido e valor, Nietzsche realiza uma crítica contundente à modernidade a partir da moral e da racionalidade que a constitui.
Para o autor, a modernidade é considerada o ápice de uma decadência que se arrasta desde Sócrates e que, privilegiando o conhecimento racional aos instintos, destrói valores e ilusões em nome de uma suposta “verdade” e é, no entanto, incapaz de criar novos valores e reconhecer essa “verdade” como uma ilusão a mais.
Wittgenstein
O pensamento de Wittgenstein, por sua vez, está no centro da chamada “reviravolta lingüística e pragmática” do século XX. Esta significou a descoberta da linguagem (discurso) como mediação ineliminável de todo saber humano.
Não se trata de uma disciplina (Filosofia da Linguagem) ao lado de outras, mas sim da abordagem da linguagem como condição de acesso à realidade. Por outro lado, essa mesma reviravolta dá, também com Wittgenstein, uma guinada pragmática. Com ela, toda ação humana, bem como a própria constituição de si, é mediada por uma práxis lingüística, ou pelo que Wittgenstein chama de “jogos de linguagem”.
Heidegger
Heidegger fez uma crítica ao pensamento metafísico da tradição filosófica, ou seja, o pensamento que busca entender o Ser. Para o autor, esse “Ser” é fundamentalmente Sentido.
O homem, por sua vez, deve ser entendido como ‘clareira’ do ser, ente privilegiado onde o Ser se desvela, manifesta-se. A compreensão é um modo de ser do homem, ou seja, o homem se conhece como imerso em um contexto de sentido e com um esquema ‘pré-conceitual’ já introjetado.
O homem articula sentido (faz associações), um sentido que já o possui e possibilita compreensão. Gadamer, a partir de Heidegger, assume a temporalidade do ser humano e da Razão que é por ele constituída.
A Razão não é mais una, como prescrevia a metafísica da tradição, mas histórica, referentes aos diversos contextos histórico-contingenciais.
Jürgen Habermas
Tal situação de crise, no entanto, não gera consenso sobre o fim da modernidade (Vattimo, 1996) e a passagem à “pós-modernidade”. Em 1980, Jürgen Habermas profere um discurso intitulado “Modernidade: um projeto inacabado”, onde se posiciona a favor de alguns aspectos principais da modernidade por compreendê-los como inconclusos. “O projeto da modernidade tinha ainda que ser realizado. Mas a tentativa cabal de negá-lo — uma decisão desesperada, havia fracassado” (Anderson, 1999:45). Para Habermas, não se podia negar todas as contribuições da modernidade, inclusive aquelas relativas às esferas de valor e a necessidade do consenso que serão resgatadas posteriormente em seu pensamento — a Teoria da Ação Comunicativa.
Vattimo e Lyotard
Por outro lado, para autores como Vattimo (1996) e Lyotard (1993), o fim da modernidade representa o fim das metanarrativas e das pretensões universalizantes da razão, privilegiando as pequenas narrativas que priorizem o dissenso, sem que com isso enveredemos em um irracionalismo.
Atividade de portfólio
Com base no tópico acima e no artigo As Razões da pós-modernidade (Clique no título para abrir ou vá a Material de Apoio) (2001) de L Chevitarese, procure responder às seguintes perguntas:
Pós-modernidade significa “irracionalismo”? Discuta.
O que significa o “fim das metanarrativas”? Discuta.
Elabore respostas para as questões acima e apresente-as em seu portfolio.

Teoria da Literatura
Aula 5 - O pensamento Pós-Modernona Literatura
Tópico 3: A literatura na pós-modernidade
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Tendências da literatura na contemporaneidade
Ao se analisarem certos textos recentes da literatura brasileira, assim como de outras literaturas, do período denominado “pós-modernismo” (termo carregado de imprecisão), é possível perceber elementos comuns que parecem caracterizar determinados discursos literários do final do século XX e do início do XXI.

1. multiplicidade de enunciadores: o narrador ou eu-lírico único e inquestionável passa a ser substituído ou replicado por outra, ou outras vozes, que fazem do relato um texto sem um dono que lhe confira autoridade;
2. instabilidade e desautorização do enunciador: a autoridade do narrador/eu-poético tradicional passa a ser colocada em questão na medida em que outras vozes se interpõem ou rebatem a voz “central”, ou a que deveria ser o centro, que não há mais;
3. insolubilidade, ou ausência de desfecho: a complicação, o clímax e o desenlace clássicos não mais constituem o apelo da narrativa; a lírica ressente-se de uma direção estabelecida;
4. desmaterialização da trama narrativa: não há propriamente uma trama, no sentido tradicional; os acontecimentos não apresentam obrigatoriamente uma relação de causa e efeito entre eles; as estruturas são corroídas internamente por fatias, vazios, parecendo fadadas à auto-destruição, ao despedaçamento;
5. indefinição entre real e ficção: transmutação contínua do real em irreal e do irreal em real;
6. variação de escala, desmesura, tendência ao “menos”: desproporcionalidade entre as partes de um texto, ou excessiva miniaturização da narrativa, ou expansão da lírica;
7. instabilidade e tensão enunciativa: não há mais um condutor confiável da trama ou do universo poético: ele dá voltas, mostra-se indeciso, não sabe muitas vezes para onde ir;
8. forma ditada pela lógica interna da obra: as formas tradicionais da narrativa, como também da lírica, parecem definitivamente abandonadas; o que define a forma é o próprio texto; assim, cada obra é em si uma forma mais ou menos original;
9. interferência de outros sistema semióticos: intensifica-se o diálogo da literatura com outras linguagens, particularmente na poesia;
10. revelação dos bastidores da escrita: intensificação da metalinguagem, problematização direta do processo criativo.
Assim, na narrativa e na lírica, podem-se constatar os seguintes traços que aparecem com uma certa insistência:
Considerando-se essa tendência geral de errância e dispersão, percebe-se que a História perde seu poder ordenador ou organizador do texto literário, que passa a recusar o tempo progressivo e teleológico. O discurso literário que atua ao lado da História nesse sentido deve ser entendido como o discurso universal, dos metarrelatos totalizantes (ou “totalitários”), das utopias políticas ou artísticas.
O indeferimento da História coloca em sua ausência a heterogeneidade, a diferença ─ ou a indiferença ─, a fragmentação, a indeterminação, o relativismo. Enquanto a modernidade procurava estabelecer projetos para o homem e sua episteme, em busca de progresso linear, verdades absolutas, instituições duradouras, a contemporaneidade vê pulverizarem-se quaisquer tipos de projetos totalizantes.
Parada obrigatória
Vamos retomar aqui uma leitura que você já fez no Tópico 1 da Aula 3 da disciplina Teoria da Literatura I, que você fez no semestre passado. Você vai reler o conto “Cães, marinheiros” (Clique no título para abrir ou vá a material de apoio), do escritor português de Herbert Helder. O texto foi publicado no livro Os passos em volta, mas pode ser encontrado também no seguinte endereço: http://silencio.weblog.com.pt/arquivo/021857.html

Chat
Releia agora o mesmo trecho do conto que serviu como ponto de partida daquela atividade:
“Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar”.
A proposta é que você faça seus comentários sobre o conto relacionando-o às tendências da literatura contemporânea vistas nesta aula. Imagine que o marinheiro é alegoria da literatura contemporânea, e que os cães representam o sistema que sufoca a liberdade de criação.
As observações derivadas de sua leitura deverão ser levadas ao chat que o tutor de sua turma vai marcar no período previsto na agenda.
Topo

O fato é que sempre houve um diálogo entre filosofia e literatura, por mais que esta se afirme como um descompromisso em relação às verdades do mundo, e aquela busque exatamente essa verdade.
Um exemplo disso é Michel Foucault, que desenvolveu seu pensamento filosófico sobre a loucura, o poder, a sexualidade fundamentando-se em boa parte no texto literário. Nesta aula, ao relacionarmos o pensamento contemporâneo da literatura com o da filosofia, procuramos evidenciar a proximidade dessas duas manifestações escriturais, embora ambas tenham funções e objetivos diferentes, cujo aprofundamento não cabe aqui.

Atividade de portfólio
Após todos os textos que você leu sobre este assunto, as discussões realizadas, as respostas dadas, propomos aqui que você exercite sua autonomia. Pesquise numa biblioteca ou na internet sobre a contemporaneidade na literatura ou na filosofia, e escolha um texto (um ensaio ou um capítulo de um livro). Leia-o atentamente e em seguida comente sua abordagem do texto literário ou filosófico contemporâneo, relacionando-o com o que você aprendeu nesta aula.
Produza um texto de aproximadamente uma página e coloque-o em seu portfólio. Não se esqueça de citar minuciosamente a bibliografia e quaisquer outras referências.

Bibliografia sugerida
· ANDERSON, Perry. As Origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
· CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas. São Paulo: Perspectiva, 1999.
· COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
· __________ . O demônio da teoria. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
· FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 2002.
· __________ . As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
· HARVEY, David. Condição pós-moderna. 9ª. Ed. São Paulo: Loyola, 1992.
· JAMESON, Fredric. Pós-modernismo – A lógica cultural do capitalismo tardio. 2ª. São Paulo: Ática, 1997.
· LYOTARD, Jean-François. O Pós-moderno. 4ª. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
· MACHADO, Roberto. Foucault, a filosofia e a literatura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
· OLIVEIRA, Manfredo. A. Para Além da fragmentação. Loyola, 1997.
· __________________. A Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2ª. Ed. Loyola, 2001.
· PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
· ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do iluminismo. São Paulo: Cia. Das Letras, 2004.
· SONTAG, Susan. A vontade radical. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
· VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1999.
· VATTIMO. O Fim da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
Topo

Tuesday, February 12, 2008

LITERATURA BRASILEIRA III – POEMAS
Prof. Cid Ottoni Bylaardt



O MARTÍRIO DO ARTISTA (Augusto dos Anjos)

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busac exteriorizar o pensamento
Que em suas frontais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a temer, rasga o papel, violent,
Como o soldado que rasgou a farad
No desespero do ultimo momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a lingua,
E não lhe vem à boca uma palavra!



VENCEDOR (Augusto dos Anjos)

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A espada de aço, o gládio de aço, e doma:
Meu coração ─ estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem
E não pode domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!



EUROPA, FRANÇA E BAHIA (C.D.A.)

Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um
[caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes
[nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias
[longínquas formam um tapete para
[sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos
[arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a
[cabeça dos outros dentro de alguns anos.
A Itália explora conscienciosamente vulcões
[apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suíça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos
[prestes a declanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam
[o filme bolchevista e no túmulo
[de Lenin em Moscou parece que um
[coração enorme está batendo, batendo
mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a ‘‘Canção do Exílio’’.
Como era mesmo a “Canção do Exílio”?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!



ODE AO BURGUÊS (M.A.)

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
─ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
─ Um colar... — Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte a infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...



POESIA (C.D.A)

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.



CORTE TRANSVERSAL DO POEMA (M.M.)

A música do espaço pára, a noite se divide
[em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava
[na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada
[pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa
[ dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na India,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força
[do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá,
não me lembro mais quem sou.







POÉTICA (M.B.)

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo
[e manifestações de apreço ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras
[de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

─ Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.




CANTIGA DE VIÚVO (C.D.A.)

A noite caiu na minh’alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada.



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA (M.B.)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.



NO MEIO DO CAMINHO (C.D.A.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.







CANTIGAS (Jorge de Lima)

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.
As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras
ficam tão tristes, tão pensativas!

As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! 
Os bois são morosos, a carga é tão grande!
O caminho é tão comprido que não tem fim.
As cantigas são leves...
E as cantigas levam os bois, batem a roupa
das lavadeiras.

As almas negras pesam tanto, são
tão sujas como a roupa, tão pesadas
como os bois...
As cantigas são tão boas...
Lavam as almas dos pecadores!
Levam as almas dos pecadores!

E aquelas mãozinhas
dormiam unidinhas
qual João mais Maria.

“Dedo-mindinho,
Sêo vizinho,
o Pai-de-todos,
Sêo Fura-bolos,
Cata-piolhos,
quede o toicinho?
 o gato comeu.”

Nas noites de lua
cheinhas de estrelas,
Sêo Fura-bolos
contava as estrelas...
O Pai-de-todos
cuidava dos outros:
nasciam berrugas
no Cata-piolhos.

E aquelas mãozinhas
viviam sujinhas
qual João mais Maria...

Um dia (que dia!)
o Dedo-mindinho
feriu-se num espinho...
E à boca da noite
o Cata-piolhos deixou de rezar;

e João mais Maria, juntinhos
ligados,
pararam em cruz
cobertos de fitas
que nem dois bonecos
sem molas, quebrados...

Quem compra um boneco da loja de Deus?




ESSA NEGRA FULÔ (Jorge de Lima)

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
 Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
para vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô!
Vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!

Vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco.”

Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, fulô!
“Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o sabiá beliscou.”

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
que teu Sinhô me mandou?

 Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.

O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê meu lenço de rendas,
cadê meu cinto, meu broche,
cadê meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! Foi você que roubou.
Ah! Foi você que roubou.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

Tuesday, October 30, 2007

“Modernidade em ruínas” – Roteiro de Leitura
1. Segundo LPM, como se formam os cânones literários?
2. Quais são as aspirações dos novos escritores?
3. Qual é a relação entre a literatura e a sociedade de consumo? Como se situa aí o ato da leitura?
4. Quais são os sinais, apontados por Octavio Paz, de falha do projeto moderno?
5. Para LPM, qual é a diferença entre modernidade e modernismo?
6. A partir do texto de LPM, tente definir “pós-modernidade” e aponte seus traços principais e sua delimitação temporal na história.
7. Quais são os argumentos dos que rejeitam o pós-moderno?
8. Qual é a posição de Habermas em relação à pós-modernidade?
9. Como Ihab Hassan opõe o moderno ao pós-moderno?
10. Como LPM contesta o binarismo de Hassan?
11. Que considerações LPM faz sobre os chamados traços pós-modernos?
12. Que crítica faz LPM a Linda Hutcheon?
13. Quais são os traços que caracterizam os escritores-críticos estudados por LPM?
14. Por que LPM diz que a literatura está na UTI?
15. Comente: “Das posturas românticas, a pós-modernidade só abandonou a utopia, a nostalgia do absoluto, da totalidade, do sublime” (p. 189).
16. Que modificações a autora aponta no ensino da literatura no século XX?
17. Qual a contribuição dos próprios professores de literatura para o que a autora chama “estrangulamento dos estudos literários”?
18. Qual a posição de Terry Eagleton em relação à literatura?
19. Comente a expressão “movimento pendular entre texto e contexto” (p. 193).
20. Qual é a situação dos estudos literários no Brasil?
21. Por que a autora se refere à sociedade norte-americana utilizando a expressão “evangelização belicosa” (p. 195)?
22. Em que as condições de aprendizagem brasileiras diferem das norte-americanas?
23. Qual é a relação entre os culturalistas e o cânone?
24. Quais são os três mal-entendidos que a autora enumera sobre o cânone?
25. Explique a posição de Harold Bloom sobre o cânone.
26. Em que LPM concorda e em que ela discorda de Bloom?
27. Qual é a opinião geral da autora sobre a cultura de massa e a globalização?
28. Que tipo de cultura, segundo LPM, está ameaçada de extinção?
29. Como se situa a literatura nesse contexto?
30. Qual é a posição de Roland Barthes em relação à literatura contemporânea?
31. Como LPM descreve as idéias de Blanchot?
32. Qual é a constatação de Haroldo de Campos sobre a poesia pós-moderna?
33. Resuma o balanço que Octavio Paz fez da literatura contemporânea.
34. A que tipo de confusão levou a má assimilação das idéias de Foucault, Barthes, Derrida e Sollers?
35. Qual é a conclusão de LPM sobre os escritores-críticos modernos?
O desastre da escritura: “Meu tio o Iauaretê”

Cid Ottoni Bylaardt
(Universidade Federal do Ceará)



“Meu tio o Iauaretê” é o desastre da escritura, a escritura do desastre . O termo do desastre é simultaneamente complemento e adjunto: tanto é o processo pelo qual o desastre é escrito quanto a escritura empreendida pelo desastre: a escritura é agente do desastre e alvo dela. A esse propósito, a força impressionante da linguagem em “Meu tio o Iauaretê” de Guimarães Rosa reporta a alguns fragmentos de Maurice Blanchot em L’écriture du desastre. O primeiro deles relaciona ato de escrever e desastre, desvinculando-os da experiência:

Le desastre inexpérimenté, ce qui se soustrait à toute possibilité d’expérience — limite d’écriture. Il faut répeter: le desastre dé-crit. Ce qui ne signifie pas que le désastre, comme force d’écriture, s’en exclue, soit hors écriture, um hors-texte. (BLANCHOT, 1980, p.17)

O desastre não-experimentado é o relato do bugre que o visitante ouve e no qual interfere, mas sobre o qual não pode exercer controle. O relato se de-screve, com todas as possibilidades que essa clivagem sugere. O texto de Blanchot faz pensar então na instabilidade da situação dos corpos que se movem na narrativa de Rosa: de um lado, o interlocutor mudo que interfere violentamente tanto na enunciação quanto no enunciado do texto, e de outro o falador, que não aceita as imposições do visitante, vistas como ameaças a sua integridade selvagem, mas que também não alcança impor as suas. Ao ler o texto de Rosa, caímos freqüentemente na tentação simplificadora de associar o falante ao escritor e o ouvinte ao leitor. Todavia, não se pode esquecer, por um lado, de que o visitante também participa ativamente da escrita, funcionando como a outra mão, que sugere, exige, obriga; por outro lado, o locutor é também ouvinte, acatando ou repelindo as imposições-sugestões.
O operador do discurso é o eu falo, que automaticamente remete à posição formal clássica da situação em que a fala versa sobre um objeto ao qual o “eu” responsável dá suporte. Esse “eu falo” aqui, entretanto, coloca em risco a narrativa, por ser portador de um discurso que falta, que não conduz ao desfecho confortável que distende, mas ao vazio que acumula tensão. A linguagem, ao invés de se fechar, expande-se ao infinito, e o sujeito se dispersa até o desaparecimento no espaço da não-delimitação, no tempo da ausência de tempo. Agora, o eu falo não é mais responsável por um discurso, mas condutor trôpego de uma gramática-onça que não responde mais por verdades humanas. A sintaxe do homem-fera mostra sua última palavra sem fechá-la em predicado ou complemento, um signo móvel sempre pronto a se abrir para outros, em movimento disperso, jamais em linha, sem regras nem unidade, sem começo nem final. Um tecido irregular, uma rede sem centro nem simetria, sem um fio que indique a porta de entrada ou o caminho de saída.
O eu falo da cultura ocidental tende a privilegiar o sentido, a transparência, a presença; a escritura literária, por outro lado, inclina-se a negar a existência, e portanto a presença tanto do que se diz quanto de quem disse; ninguém fala, não há ser humano a quem possa ser atribuída essa fala: a experiência fundamental volta-se à desaparição do sujeito. Essa ausência de obra, de conceito, de Deus, de totalidade, essa direção ao desconhecido tem como único desdobramento o desastre, ou o não-fim. Fechar a obra, terminar o texto seria aceitar o saber absoluto, o êxito.
O discurso do bugre-fera ruma para a metamorfose, para a palavra estranha e estrangeira, para a língua híbrida que não faz relatos exemplares. As histórias de onça reportam a um viver da classe da pureza, com o amargo arrependimento do locutor de ter matado muitas delas. Dos homens, não tem piedade, nem ódio, nem desejo de vingança. Apenas mata-os, ou entrega-os às colegas onças, porque isso faz parte de sua ordem natural. Assim, Gugué, Antunias e Riopôro morrem de “doença”, isto é, viram comida de onça; o preto Bijibo, “muito bom, homem acomodado”, também é entregue às feras; Rauremiro e toda a família são “devorados” pelo próprio narrador; preto Tiodoro parece ter tido o mesmo fim. Só Maria Quirinéia sobrevive à selvageria do homem-onça... além de seu marido, evidentemente, mas este não se situa em nenhuma esfera ameaçadora, por ser ele próprio uma criatura-limite, o louco manso no limiar do humano.
A instabilidade das situações narradas conduz à obscuridade das cenas que marcam o fim das páginas da novela. Não são poucas as exegeses que apontam a morte do sobrinho-onça como algo inquestionável. Ensaístas ilustres, como Walnice Nogueira Galvão, Haroldo de Campos, Ettore Finazzi-Agrò e Clara Rowland apostam na morte inquestionável do bugre, assassinado a tiros pelo visitante.
Haroldo de Campos afirma que “o interlocutor virtual também toma consciência da metamorfose e, para escapar de virar pasto de onça, está disparando contra o homem-iauaretê o revólver que sua perspicácia mantivera engatilhado durante toda a conversa” (CAMPOS, 1992, p. 62). Ele se refere ainda aos “rugidos de morte do homem-onça” (idem) e ao “estertor de suas últimas exclamações” (idem). Há, portanto, nessa leitura, a morte física do locutor. Considerando que um dos pontos mais importantes da exegese de Campos é o fato de que o discurso do sobrinho do iauaretê incorpora o “momento mágico da metamorfose” (CAMPOS, 1992, p. 62), conforme referência emprestada de Ezra Pound, do projeto de seus Cantares, causa estranheza o fato de que a impossibilidade da transformação tenha de ser punida com a morte, ao invés de permanecer na dimensão do impossível, do irresolvível, o que nos parece mais adequado à idéia de desastre da escritura e escritura do desastre.
No ensaio de Ettore Finazzi Agrò, o óbito está no título: “A voz de quem morre. O indício e a testemunha em ‘Meu tio o iauaretê’” (AGRÒ, 2006, p. 25). O ensaísta assinala aí, de forma feliz, a “relação impossível” que se estabelece “no limiar certo mas sem consistência entre o humano e o infra-humano ou não humano” (p. 28), e aponta o “desejo absurdo” do escritor de dar voz a essa impossibilidade, na superação da necessidade de uma testemunha. É precisamente pelo caráter impensável do evento que a narrativa do iauaretê-sobrinho, a nosso ver, deve eliminar a morte, mantendo-a suspensa no limiar do intransitável.
Clara Rowland, por sua vez, estabelece uma relação de causa e efeito entre a narração e a morte: “É por contar que matou que o narrador irá morrer” (ROWLAND, 2006, p. 45) ao mesmo tempo em que sustenta, com propriedade, o caráter inconcluso do texto. A morte, em algumas abordagens, pode ser a salvação da escrita, mas para nós é a traição da escritura, em cujo desastre apostamos. Não se trata de morrer, mas de estar a morrer.
No ensaio de Walnice Nogueira Galvão, talvez pela época em que foi escrito, por sua proximidade e compromisso com a mitológica straussiana, chega-se a assinalar o caráter paradigmático da morte do bugre, aquele que tem que morrer porque não pode ser nem fera nem humano, porque é incestuoso, numa saída dialética para o impasse: “Exemplarmente, termina abatido a tiros de revólver pelo interlocutor branco” (GALVÃO, 1978, p. 31). Nesse caso, a morte funcionaria como um desfecho, um ajuste de contas com o implausível, uma confortável determinação.
O texto de Rosa, todavia, não direciona a essa conclusão, a essa distensão seguida de repouso. Ao contrário, tais cenas promovem um recrudescer de tensão que não se resolve, apontando possivelmente para uma dispersão, para uma multi-metamorfose que pulveriza os seres, mas jamais para algo como um remanso merecido do texto, produto de vingança, punição ou exeqüibilidade. Repetindo um lugar-comum do discurso policialesco, não há crime sem cadáver, e aqui essa ausência soma-se às falhas patrocinadas pelo desastre.
Essa indefinição relacionada à morte do contador da história é, portanto, imanente à história, e suscita uma inevitável comparação com Grande sertão: veredas. Têm sido apontadas semelhanças entre o conto e o monumental romance: a presença de um visitante tácito, que parece ter uma certa ascensão cultural sobre o narrador, o qual, por sua vez, despeja sua verborréia memoriosa sobre o chegante. As semelhanças, entretanto, param aí, e as diferenças revelam-se muito mais profundas do que parecem. É intrigante saber que Rosa escreveu "Meu tio o Iauaretê" em momento não muito distante da criação de Grande sertão: veredas, de acordo com o breve resumo da trajetória do conto, fornecido por Clara Rowland, pesquisadora de Rosa:

"Meu tio o Iauaretê" ocupa na obra de Rosa um lugar instável. Publicado pela primeira vez em 1961 na revista Senhor, continuou a ser revisto e alterado pelo autor até a sua morte súbita em 1967, sendo mais tarde editado por Paulo Rónai para a publicação póstuma de Estas estórias (1969), com marcas de reescrita e de indecisão, sobretudo no nível lexical. Da sua inclusão no plano original do último livro de Rosa dão conta os projetos de índices e as sugestões para o ilustrador. No entanto, uma nota autoral remete-o a uma fase anterior à publicação dos dois livros de 1956, Corpo de baile e Grande sertão: veredas. (ROWLAND, 2006, p. 43)

Temos aqui um elemento externo que causa perplexidade. Se a escritura de "Meu tio o Iauaretê" chega a ser anterior a Grande serão: veredas, por que Guimarães Rosa o teria retido por pelo menos doze anos, até ser publicado como conseqüência de sua morte, e sem uma edição “autorizada” e “definitiva”, como era costume na época? Uma explicação fácil é atribuir a omissão à inconveniência de duplicidade formal, como ocorre na indagação de Walnice Nogueira Galvão: “Seria a exploração de um mesmo achado formal a explicação para o engavetamento?” (GALVÃO, 1978, p.34).
Optamos pela conjectura menos óbvia: Guimarães Rosa teria retido esse texto pela sua total incompatibilidade com a narrativa de Riobaldo. No romance, temos como narrador um ex-jagunço que percorre um caminho inverso ao do bugre onceiro: Riobaldo está aposentado, vive uma vida abastada e tranqüila, em que seus tiros não matam, apenas ferem uma inocente tábua de tiro-ao-alvo, sua companheira de brinquedo bem-educado. Definitivamente, o ex-jagunço civilizou-se, sua história circunscreve-se de forma definida num espaço-tempo mítico, sim, que se amplia pela imensidão do sertão-mundo, sim, mas que é da ordem do apaziguamento, do repouso, em que pese o sinal ∞ que se apõe ao final da escrita, necessário aviso de que a travessia não se completou, alívio para um incômodo. A enunciação traz o discurso para o domínio da linguagem possível, da legibilidade, por seu divórcio com o enunciado. Seu tácito interlocutor não é para ele uma ameaça, mas um paciente escutador de histórias bem instalado na confortável residência do rapsodo, a apreciar o relato. O anfitrião sente orgulho por hospedar um doutor culto, e uma certa inveja sadia por querer ser ilustrado como o visitante, mas seus sentimentos são civilizados, adequados a uma convivência social obsequiosa.
Por outro lado, a relação entre o narrador e o visitante de Meu tio o Iauaretê é de extrema tensão, que vai da fingida cortesia à franca hostilidade. O contador vive um momento de indefinição, em que sofre a mais terrível metamorfose possível: a passagem de sua condição humana para o pós-humano (ou infra-humano?). Aqui a enunciação cola-se ao enunciado, numa vertiginosa babilônia que escapa à busca de uma lógica racional. O espaço é tão amplo quanto o do grande sertão, a cabana não tem paredes limítrofes com o mundo da barbárie, as feras transitam por todos os lados, aquele que tinha por missão desonçar o mundo agora alimenta os felinos com carne humana, o visitante parece mais um agente da civilização que exerce um patrulhamento inútil sobre a ação da selvageria. O discurso se ininteligibiliza e se desautoriza do ponto de vista civilizado tanto pela metamorfose do homem em bicho quanto pela ação da cachaça ingerida por ele em grandes doses. A instabilidade instaurada por Rosa nesse texto é de tal ordem que não comporta desfecho, daí a impossibilidade da morte.
Não teria então o autor segurado este, que é seu filho rebelde, para que o outro, evidentemente mais comportado, e que tinha tudo para ser festejado, como o foi, não sofresse a ação da comparação maliciosa? Ou, situação mais trágica, para que um não funcionasse como palinódia do outro? Ou quem sabe essa tensão entre um texto e outro fosse uma experiência necessária à escrita de Rosa, e ter o texto-fera na gaveta não produzisse o efeito de provocar a mão que não escreve em sua função reguladora da escritura de escritor-onça e que terminou por nos presentear com as feras de Tutaméia? Não interessam as respostas às perguntas, mas elas têm que ser feitas, e têm que nos fazer pensar.
Esta leitura arrisca uma morte mais notável, pertencente ao estatuto da escritura, a morte que possibilita a metamorfose em direção à impossibilidade da morte. Há um texto que precisa morrer para ceder lugar à escritura do onceiro-onça, e este não se encontra exclusivamente nas palavras finais. Eis o desastre rosiano: a escritura do que não pode ser experimentado, ou do que é vivenciado no limite, um limite da ordem da linguagem. Segundo Blanchot, o desastre dé-crit, que sugere a forma da terceira pessoa do verbo décrire, em francês. Sem o hífen, o verbo equivaleria ao nosso descrever — o desastre descreve —, o que empobreceria enormemente a sugestão, já que a ação pretendida não é do estatuto da exposição minuciosa, da representação fotográfica, do traçado nítido. Destacado de escrever, sem dúvida o mais importante dos verbos utilizados por Blanchot, o prefixo, de grande vitalidade em francês e em português, acumula significados que ferem de todos os lados o radical: ação contrária à que ele sugere; cessação da ação indicada; ação mal feita; negação da qualidade do ato; separação; mudança de aspecto; remoção. Assim, pelo excesso, o verbo se esvazia, evocando a escritura-desastre do domínio das onças.
Tal idéia do desastre encontra ressonância na linha de argumentação de Giorgio Agamben em The man without content, segundo a qual a essência do conteúdo artístico desdobra-se a partir do princípio criativo-formal, condenando o artista a viver além de sua própria realidade: “The artist is the man without content, who has no other identity than a perpetual emerging out of the nothingness of expression and no other ground than his incomprehensible station of this side of himself” (AGAMBEN, 1999, p. 55).
Esse “homem sem conteúdo”, isto é, esse homem que se afasta do humanismo da escrita em direção ao inumano da escritura aparece com toda sua força nesta criatura linguageira que de matador de onças passa a provedor de carne humana para as feras. Essa é a escritura que, ao recusar a lei dos humanos, procura sua lei própria. Cabe ressalvar que essa recusa não se dá, como a palavra pode sugerir, de uma maneira determinada, definitiva, mas está carregada de tensões, de volutas e meneios atormentados, de desistências e recomeços.
Esse desastre pede um escritor que não saiba escrever, isto é, que não seja portador da má consciência nietzschiana, um selvagem vagabundo, livre do castigo e de todas as outras monumentais barreiras destinadas a obstruir os instintos de liberdade do ser primitivo. A má consciência, então, será alocada na figura do interlocutor, que se apresentará como pregoeiro da ira, da crueldade, da necessidade de perseguir, próprios do “homem superior” que tanto busca o conhecimento quanto se guia por ele.
Avulta aqui então esse homem sublime, a suprema mistificação do humanismo, a criatura que espreita o parente das onças, como a testar a viabilidade de sua condição humana. Não ri, não brinca, não dança, é sério, grave, vingativo, como um Teseu mais preocupado com sua missão de derrotar o monstro do que com a dificuldade de se desvencilhar de seu labirinto. Homem branco, bonito e rico, ele patrulha os movimentos do sobrinho do Iauaretê, quer impor o objeto da escrita, encontrando resistência: “Ah, mas isto eu não conto, que não conto, que não conto, de jeito nenhum! Por quê mecê quer saber? Quer saber tudo? Cê é soldado?...” (p. 232) . O visitante carrega, assume, suporta as provas com um fardo às costas, enfrenta monstros, estabelece leis, quer botar ordem no sertão — quer ordenar a escrita. Ele é o homem da ordem, o soldado que vigia e pune.
O animal que o representa, segundo Nietzsche, é a mula. A viagem aos confins da teia-labirinto, todavia, faz estropiar a mula que carrega o fardo, provocando uma baixa inicial na superioridade do sublime: “Cavalo seu é esse só? Ixe! Cavalo tá manco, aguado. Presta mais não. Axi... Pois sim. Hum, hum.” (p. 191). A mula de Nietzsche, aqui, é comida de jaguar: os cavalos do visitante fugiram, espalharam-se pelo mato, seu destino garantido é bucho de felino, conforme o bugre. O ex-onceiro recusa carregar o fardo: não gosta de cavalo; cavalo e cachorro são presas de onça. O visitante pressente o perigo de estar perdido nesse labirinto sem a mula que ateste sua condição de homem superior, sem o meio de se evadir heroicamente desse meio desconhecido.
No ensaio “O mistério de Ariadne segundo Nietzsche”, Gilles Deleuze faz uma leitura da concepção nietzschiana da tríade Teseu-Ariadne-Dioniso, ligada ao conceito de homem superior e ao de eterno retorno, desenvolvidos pelo filósofo alemão (DELEUZE, 2000, p. 140). Depois de ajudar Teseu a se conduzir pelo labirinto após ter matado o Minotauro, Ariadne foge com o herói e é abandonada por ele na ilha de Naxos. É então seduzida por Dioniso, que se casa com ela. Deleuze pinça em vários textos de Nietzsche, e principalmente em Assim falava Zaratustra, uma interpretação do affair: “Passar de Teseu a Dioniso é, para Ariadne, uma questão de clínica, de saúde e de cura.” (DELEUZE, 2000, p. 144). Teseu é a impossibilidade do regresso, Dioniso é o eterno retorno.
Esse Teseu que o ex-onceiro hospeda em “Meu tio o Iauaretê” não tem o fio de Ariadne em suas mãos; não tem nem mais a mula para carregar seu fardo. Ariadne não pode ser mula, caso contrário será apenas uma aventureira fracassada sem fio e sem fibra, apenas com um cavalo estropiado. Ela só pode ser onça; sendo assim, não lhe cabe fornecer o fio que conduzirá o herói sublime com segurança à luz do dia; ela fornece, sim, o fio da teia que vai enredar definitivamente aquele que não se escuta no labirinto, na teia do infinito. Essa Ariadne não dorme; encontra um Teseu dormindo e transforma-o em Dioniso, seduzindo-o, fazendo-o transpor o limiar do humano, da linguagem-teseu para a linguagem-onça, o jaguanhenhém dionisíaco. Num parágrafo aparentemente perdido de Assim falava Zaratustra, Nietzsche refere-se à saudável metamorfose: “Porque eis aqui o segredo da tua alma: quando o herói a abandona, é então que se aproxima em sonhos o super-herói” (NIETZSCHE, s/d, p. 107). Nietzsche refere-se certamente, embora de forma enigmática, ao abandono de Ariadne por Teseu, e sua aproximação a Dioniso. Ariadne, portanto, é alma, é Maria-Maria, o segredo de nosso homem-onça.
A noite da sedução é memorável: o personagem não sabe ainda que é parente de onça, ou pelo menos ainda não tem certeza. Maria-Maria se achega enquanto ele dorme; o ritual da morte é substituído pelo jogo do afeto, em que ela declara seu amor a ele: “Onça que era onça — que ela gostava de mim, fiquei sabendo...” (p. 208). Os dois dormem juntos, e ele percebe que não pode mais matar onças, com exceção da suaçurana, aquela que conspurcou seu leito de amor com suas fezes fedorentas. Maria-Maria é porã-poranga, catú, bicho bonito, bela fêmea, bonita e cheirosa: “Bonita mais do que alguma mulher. Ela cheira à flor de pau-d’alho na chuva” (p. 209). Até o hálito das onças é perfume para ele. Ele se afirma seduzido e zela por sua condição de onça-macho, declarando que não permitirá a aproximação de nenhum marido-onça; doravante, é o ser viril: “Se algum macho vier, eu mato, mato, mato, pode ser meu parente o que for!” (p. 210). A tentativa de sedução perpetrada pela outra Maria, a Quirinéia, que não é onça, redundou em fracasso: por pouco ela não virou comida de fera, sendo salva por seu charme; o bugre, todavia, permaneceu irredutível, prometido para sua Maria-Onça. Suspendeu o ódio que a tentativa de assédio provocou nele, permitiu que Maria Quirinéia fugisse, e até ajudou-a, para não matá-la. Inconsciente do perigo que esse homem-felino representava, ela ainda o provocou: “Mecê homem bom, homem corajoso, homem bonito. Mas mecê gosta de mulher não...”; ao que ele tornou com uma resposta ambígua, incompreensível para ela: “Gosto mesmo não. Eu — eu tenho unha grande” (p. 233).
Bacuriquirepa é a afirmação pura; Maria-Maria é anima, a afirmação desdobrada. Ao dizer sim a Dioniso, a positividade redobra-se nele, o sim-sim que produz o eterno retorno da união Ariadne-Dioniso, que permite à escritura se desvencilhar da finalidade rumo à felicidade. O bugre dionisíaco não é panema ─ doente, infeliz ─ mas marupiara ─ criatura feliz, de sorte (p. 227), que redobra em si pensamento de onça, pensamento de leveza, de quem não tem que carregar fardo, apenas ser ditoso:

Eh, então mecê aprende: onça pensa só uma coisa — é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar. Pensa só isso, o tempo todo, comprido, sempre a mesma coisa só, e vai pensando assim, enquanto que tá andando, tá dormindo, tá fazendo o que fizer... Quando algũa coisa ruim acontece, então de repente ela ringe, urra, fica com raiva, mas nem que não pensa nada: nessa horinha mesma ela esbarra de pensar. Daí, só quando tudo tornou a ficar quieto outra vez é que ela torna a pensar igual, feito em antes... (p. 223)

Maria-Maria sabe com seu saber próprio que dizer sim é desatrelar-se, descarregar os fardos, afirmar a vida. O pensamento feliz não comporta seu contrário que autorizaria o movimento dialético: ele simplesmente pára de funcionar no momento em que o bom-bonito é ameaçado, para recomeçar quando os sinais vitais se reapresentam.
O sobrinho-onça faz, então, o caminho inverso do homem Nietzscheano, seu sublime desafeto, que perde a liberdade para civilizar-se: ele inicialmente contribui para o processo civilizatório, assumindo a missão de desonçar o mundo; em seguida reconhece seu próprio erro, e é seduzido pela onça, que o atrai para o mundo selvagem, inserindo-o nele de forma tensa. Esse é o movimento que a escritura do relato faz, ampliando desmesuradamente seu caminho, tornando-o infinito, sem lei que o limite, desvencilhando-se dos pesados valores que correspondem ao patrimônio do homem superior nietzschiano: “ ‘Este é agora o meu caminho: onde está o vosso?’ Era o que eu respondia aos que me perguntavam “o caminho”. Que o caminho... o caminho não existe.” (NIETZSCHE, s/d, p. 168)
Esse movimento não-dialético estabelece o relacionamento entre a escritura e a morte, mas a morte numa dimensão que não é da ordem do desfecho, da conclusão, e sim do porte de um embate repleto de riscos para a integridade da linguagem; não a morte que nos livraria do desastre, mas a que nos faz abandonar-nos a ele, como assinala Blanchot:
(...) d’où le rapport œuvre d’art et recontre avec la mort: dans les deux cas, nous nous approchons d’un seuil périlleux, d’un point crucial où nous sommes brusquement retournés. (…) Passage à la limite. Il reste possible que, dès que nous écrivons et si peu que nous écrivons — le peu est seulement de trop — , nous sachions que nous approchons de la limite — le seuil périlleux — où le retournement est en jeu. (BLANCHOT, 1980, p. 18)

No caso do nosso sobrinho de onça, o perigo do umbral repousa na ambigüidade do próprio retorno. O ser pode encontrar sua volta à condição humana, por exigência da notoriedade a que aspira; pode também retornar ao tempo sem tempo e ao espaço sem espaço, que é o retorno do desastre, o retorno sem presença, o não-desejado porque não-planejado. Assim, o evento singular do eterno retorno de Dioniso em direção a Ariadne não é da ordem do desejo, mas da exigência da escrita naquilo que ela tem de irrecusável. É nessa recusa da escrita que, segundo Blanchot, reside o dom de escrever: “Celui qui ne sait plus écrire, qui renonce au don qu’il a reçu, dont le langage ne se laisse pas reconnaître, est plus proche de l’inexpérience inéprouvée, l’absence du ‘propre’ qui, même sans être, donne lieu à l’avenement” (BLANCHOT, 1980, p. 154). O que os homens chamam de estilo, nesse caso, vem a ser o que resta de outra recusa, a resistência do escritor a abandonar-se à escrita, negativa que acarreta a notoriedade que o entrega ao poder, que evita o apagamento, a desaparição.
Um dos traços mais importantes desse devir-onça, em sua recusa do devir-homem, é a instabilidade do nome, o excesso que não identifica, que conduz ao nada: “Ah, eu tenho todo nome” (p. 215). E produz-se aí uma lista de denominações: Bacuriquirepa, Breó, Beró, Tonico, Antonho de Eiesús, Macuncôzo, Tonho Tigreiro. O acúmulo se reduz a nada: “Agora, tenho nome nenhum, não careço” (p. 215); “Agora tenho nome mais não” (p. 216). A mãe é Mar’Iara Maria, bugra, nome que contém a beleza de Maria-Maria, e que é iara, dona, senhora. O nome é o que estabiliza o ser, que lhe dá um presente e um aqui, a honra do super-homem que provoca no ser dionisíaco a estranheza, o horror. Ouçamos mais uma vez Blanchot: “L’horreur — l’honneur — du nom qui risque toujours de devenir sur-nom , vainement repris par le mouvement de l’anonime: le fait d’être identifié, unifié, fixe, arreté dans um présent.” (BLANCHOT, 1980, p. 17). O nosso ex-onceiro não consegue atribuir-se um nome — ou atribui-se todos. Mas ele também atribui nomes às onças, agora que não as mata mais. É curiosa a forma como se dá essa atribuição, fugindo à determinação humanística que atrela o ser à realidade, conduzindo à noção blanchotiana de sur-nom. O personagem-onça declara que as onças agora têm nome, e o interlocutor provavelmente pergunta se foi ele quem as nomeou. Ele titubeia, admitindo ser o responsável pelo batismo, mas ressalvando que “era mesmo o nome delas”. O homem branco duvida, deixando o bugre indignado: “Atié... Então, se não é, como é que mecê quer saber? Pra quê mecê tá preguntando? Mecê vai comprar onça? Vai prosear com onça, algum?” (p. 211). O visitante, com sua objeção, procura atrair o ato de nomear para o lado do humano, para provocar o efeito prático do nomear para existir. O bugre resiste bravamente, e utiliza os verbos comprar e prosear de maneira altamente irônica em relação às pretensões do visitante, que quer demonstrar imenso saber cartesiano, mas que no fundo pouco sabe. As onças de sua convivência não têm mais valor de troca e nem são mais objeto da prosa do ser humano a qual pretende dispor de sua existência. Desprezando o comprar e o prosear, privilegiando o saber, o bugre ataca: “Teité... Axé... Eu sei, mecê quer saber, só se é pra ainda ter mais medo delas, tá-há?”. Coitado, que seja assim... Dioniso provoca o super-homem; o saber totalizante só tem valor aqui no sentido de fomentar o pavor, de estabelecer uma supra-realidade que só reafirma a luta do homem contra o monstro, nesse caso com desvantagem daquele em relação a este.
O desastre perpetrado pela narrativa do bugre-onça é a afirmação da singularidade do extremo, em que o eu, em sua passividade e entrega, sai do eu para encontrar-se em um fora, em tempo de estar a morrer, em que o ser nem suporta nem é suportado, em que a morte é pura e vã. Esse tempo e lugar da ausência só podem ser marcados pela linguagem do fragmento, da explosão, da dispersão, que não logra nem relatar uma experiência exemplar nem invocar uma episteme, um código que não comporta o discurso da nominação. Ao invés do silêncio, o balbucio daquele que, não sabendo mais falar, não pode calar-se. Este homem, que elimina os portadores dos pecados da gula, preguiça, soberba, avareza, luxúria, no processo de apagar o rastro civilizatório, submete-se a uma alienação radical que subverte o eu do mestre, do interlocutor que encena o saber da totalização da potência egoísta, do dominador que manipula a força da perseguição inquisitorial. Essa subversão se dá pela força da paixão anônima, dionisíaca, que luta para corresponder a ela à revelia de seu consentimento. Esse ser, entretanto, também é acossado pela recusa, ou pelo vacilo, correndo igualmente o risco de retornar ao saber, ao eu que sabe, e que sabe que está exposto a uma onipotência egoísta, portadora da má consciência, a uma vontade assassina que mata por um motivo. Daí a existência de duas linguagens ou duas exigências, uma dialética, outra não-dialética, uma na qual a negatividade é o objetivo, que é a do domínio do homem superior, e outra na qual o neutro fala pelo ser e pelo não-ser, e que é a da escolha de Ariadne em relação a Dioniso. A lei do desastre é a lei do excesso, a lei não-codificável, a outra lei, o ilimitado cuja perda ou falha não podem ser medidas.


Referências bibliográficas:

AGAMBEN, Giorgio. The man without content. Trad. Georgia Albert. Stanford: Stanford University Press, 1999.
BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. 16 ed. São Paulo: Ed. Cultrix, 2002.
CAMPOS, Haroldo de. “A linguagem do Iauaretê” in: Metalinguagem & outras metas. São Paulo: Perspectiva, 1999.
BLANCHOT, Maurice. L’écriture du désastre. Paris: Gallimard, 1980.
DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Lisboa: Ed. Século XXI, 2000.
FINAZZI-AGRÒ, Ettore. “A voz de quem morre. O indício e a testemunha em ‘Meu tio o Iauaretê’”, in O eixo e a roda, Revista de Literatura Brasileira. V. 12. Belo Horizonte: FALE-UFMG, 2006.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “O impossível retorno”, in Mitológica Rosiana. São Paulo: Ática, 1978.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Cursos de estética. Vol. 1. Trad. Marco Aurélio Werle. São Paulo: Edusp, 2001.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. Trad. José Mendes de Souza. São Paulo: Tecnoprint, s/d.
_________ . A gaia ciência. São Paulo: Ed. Escala, 2006.
ROSA, Guimarães. “Meu tio o Iauaretê”. in Estas estórias. 5 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ROWLAND, Clara. Loup, si on jouait ai loup? Diálogo, palavra e morte em “Meu tio o Iauaretê” de João Guimarães Rosa. In: DUARTE, Lélia Parreira (org.). As máscaras de Perséfone. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2006.

Tuesday, April 03, 2007

DRUMMOND: A METAMORFOSE EM DIREÇÃO À POESIA PURA

CID OTTONI BYLAARDT
Doutor em Literatura Comparada pela UFMG
Professor Adjunto da UFC


Embora a expressão poesia pura tenha sido usada diversas vezes na história da poesia, com as mais variadas conotações, remonta à década de vinte do século vinte o início de uma série de posicionamentos a respeito de purezas e impurezas dos poemas, e da possibilidade ou não ─ e em que circunstâncias ─ de existência de poesia pura. O abade Henri Brémond pode ser considerado o iniciador da celeuma; Poe, Baudelaire, Mallarmé e Valéry, citados por Brémond como “teóricos modernos da poesia pura”, utilizaram o termo em acepções diferentes, o que impede que se chame o affair de “doutrina”, como queria o abade francês. Brémond proferiu uma leitura intitulada La poésie pure em Paris, no ano de 1925, que acendeu a polêmica em torno do chamado “torneio da poesia pura”. Os poetas citados por Brémond haviam mencionado a expressão poesia pura de maneira genérica, sem a intenção de transformá-la em bandeira de uma pretensa escola purista. Valéry, no auge do “torneio”, declara ter usado o adjetivo puro de uma maneira não técnica, sem jamais pensar em emitir uma teoria, ainda menos definir uma doutrina, ou, de forma alguma, considerar como heréticos todos aqueles que não concordassem comigo .
A associação feita por Brémond do nome de Valéry à sua “doutrina” de poesia pura teve um interesse eleitoreiro, o de preparar o campo para a eleição do poeta à Academia Francesa. Anos mais tarde, o próprio abade pronunciou um “esclarecimento”, em que ele admite que sua maior intenção era preparar o sucesso de Valéry entre os intelectuais, ou seja, sua fala teria tido uma intenção mais impura, e menos literária. Ele chegou ao ponto de reconhecer a própria incompetência para criar qualquer teoria poética: Minha formação literária ─ poética ─ é completamente superficial, e sobretudo arcaica. (...) Não li mais do que 200 versos de Valéry, e não o releio .
Para Henry Decker, a querela não passou de uma disputa sobre palavras mal definidas, título de um artigo em que o crítico contrapõe as razões de Valéry e Brémond. Entre os pólos antagônicos poesia-inspiração, na concepção bremondiana, e a poesia-fabricação valéryana, há uma infinidade de gradações que pretendem ou separar o puro do impuro, ou definir os limites em que termina a pureza e começa a impureza em poesia, ou determinar a impossibilidade ou, paradoxalmente, a necessidade da convivência desses elementos, na qual um é fundamental para que o outro apareça.
A poesia-inspiração, caminho para a pureza poética, na concepção de Brémond, teve seus defensores, como Jules Lemaître:

A idéia de poesia pura encontra-se, então, ligada àquela de inspiração, do gênio que sopra, de facilidade suprema e divina, um estado de graça que bastante naturalmente comparamos à comunicação com Deus .

O próprio Brémond admitia a precisão da linguagem poética, especialmente da poesia de Valéry, mas sem abrir mão do inefável em poesia:

A linguagem é precisa, ou então se torna verborrágica. Tanto a linguagem poética como a outra. Mas aquela tem algo de particular, de divino, isto é, sua própria precisão tem por objetivo único o de abrir, o máximo possível, as portas do mistério .

A poesia-fabricação também tem seu halo de misticismo: a paixão de Mallarmé e Valéry pela técnica envolvem uma “mística da paixão e da precisão”, que pode ser justificada pelo possível sentido da crença de Valéry, contida na pergunta de Thibaudet: “o homo faber não tem direito à sua mística, assim como o homo sapiens?
Decker complementa ele mesmo:

A poesia pura seria um produto da mente ao invés de uma efusão da alma, verso dirigido unicamente à nossa inteligência (ou aos nossos sentidos), um mero jogo espirituoso, como alguns disseram .

Paul Souday não aceita a “facilidade” da inspiração:

É certo que os modernos são, em geral, mais conscientes, mais refletidos, ou mais preocupados em levar ao público as suas reflexões. Mas essa nova moda coincidiu precisamente com o renascimento do lirismo. A poesia não perdeu nada com isso, e isso prova que ela não consiste em um puro instinto nem em não sabemos qual iluminismo fluido [outra vez Brémond] e estúpido .

É evidente que o calor da batalha não costuma dar margem a relativizações. A questão da pureza ou da impureza da poesia, entretanto, exige uma definição de parâmetros, entre os quais possamos palmilhar a poesia e sua criação.
A obra objeto de nosso estudo de poesia pura será a primeira parte de Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade. Considerando a epígrafe da obra, que contém uma citação de Paul Valéry, ─ Les événements m’ennuient ─ e a introdução do editor, que situa o livro de Drummond como marco de poesia pura, faz-se necessário ouvir o poeta francês sobre suas concepções de pureza em poesia, para se tentar perceber como ¾ ou se ¾ esses conceitos se realizam no poeta itabirano.
Vamos tentar rever primeiro o que não é considerado poesia pura, na opinião de alguns teóricos, para, verificadas as impurezas, cotejá-las com o que remanesce de elemento puro. Henri Brémond, em que pese ter admitido a superficialidade e arcaísmo de sua cultura poética, foi bastante taxativo ao relacionar as impurezas da poesia:

Impuro é, portanto ─ oh, de uma impureza não real, mas metafísica! ─ tudo o que, em um poema, ocupa ou pode ocupar, imediatamente, nossas atividades de superfície, razão, imaginação, sensibilidade; tudo o que o poeta nos parece ter querido exprimir, e exprimiu com efeito; tudo o que dissemos que ele nos sugere; tudo o que a análise do gramático ou do filósofo tira desse poema; tudo o que uma tradução conserva. Impuro, é evidente demais, é o assunto ou sumário do poema; mas também o sentido de cada frase, a seqüência lógica das idéias, a progressão do discurso, o detalhe das descrições e mesmo as emoções diretamente excitadas. Ensinar, contar, pintar, causar arrepios ou provocar lágrimas, de tudo isso se desincumbiria muito bem a prosa, pois é seu objetivo natural. Impura, em uma palavra, é a eloqüência (...)

A julgar por essa relação de impurezas, o que sobraria de pureza num poema? As respostas são bastante metafísicas e nada palpáveis: o poema provoca uma metamorfose extraordinária nas palavras de todos os dias e de todo mundo, fazendo com que elas vibrem de repente com uma luz e uma força novas , realidade misteriosa e unificante, encantamento obscuro, magia mística, corrente elétrica...
Robert Penn Warren faz um lista do que, segundo vários críticos, teria de ser excluído da poesia que se pretendesse pura:

1. idéias, verdades, generalizações, “significado”;
2. imagens precisas, complicadas, “intelectuais”;
3. materiais desgraciosos, desagradáveis;
4. situações, narrativas, transições lógicas;
5. descrições exatas, detalhes realistas, realismo em geral;
6. mudanças de tom e de clima;
7. ironia;
8. variações métricas, adaptações dramáticas de ritmos;
9. o próprio metro;
10. elementos subjetivos e pessoais.

Os elementos acima não foram dispostos em ordem de importância ou de freqüência de aparecimento em poemas de um modo geral. O primeiro item, entretanto, assume fundamental importância quando se relacionam idéias a palavras, com tudo que estas contêm de informações, de significados potenciais, de representações.
O ponto de partida da discussão sobre palavras e idéias, ou pelo menos a referência mais famosa ao affair é certamente a frase de Mallarmé: “On ne fait pas des vers avec des idées mais avec des mots”.
Para Jorge Guillén, o dito é verdadeiro, o que não significa a eliminação das idéias:

¡Exacto! Y qualquiera interpretación formalista, aunque fuese del próprio Mallarmé, sería errónea. Porque la palabra del verso también es idea ─ con toda una constelación de asociaciones, alusiones, sugestiones .

T. S. Elliot percebe a presença das idéias na poesia como um elemento de liame do leitor ao texto, algo necessário porém não determinante da qualidade de um poema:

O principal uso do “significado” de um poema, em um sentido comum, pode ser (aqui estou falando outra vez de algumas espécies de poesia, e não de todas) o de satisfazer um hábito do leitor, de manter sua mente distraída e quieta, enquanto o poema faz seu trabalho sobre ele: da mesma forma que o ladrão imaginário está sempre provido de um pedaço de carne suculenta para o cão-de-guarda .

Na linha da metáfora do pedaço de carne, numa abordagem que não dispensa o sentido lógico, Raïssa Maritain afirma que o significado, em poesia, é o que nos conduz ao sentido poético, que é espírito. A propósito dessa ”ponte” que conduz à poesia (identificada com o sentido poético), Maritain cita Marcel Raymond:

A experiência prova que o sentimento do desconhecido só se propaga a partir do conhecido .

O efeito da poesia no leitor (algo que é concebido nos misteriosos retiros do ser) é provocado, assim, tanto pela presença do sentido lógico quanto por certo ilogismo saboroso, que não é o sem-sentido, mas a superabundância de sentido. E assim conclui Maritain:

Assim é, acreditamos, a fonte do sentido poético, ele próprio livre e suficiente, sentido poético este que comporta inevitavelmente um sentido e uma falta de sentido lógico.

O sentido, o significado, as idéias, para alguns, deviam ser excluídos de qualquer poesia que se pretendesse pura. Apenas num postulado puramente idealista, teórico, ou pretensamente metafísico, pode-se admitir essa exclusão. Um poema pode, sim, apresentar-se desprovido de sentido ─ hermetismo absoluto. Basta inventarem-se combinações de fonemas destituídos de conteúdo semântico. O resultado será um amontoado de sonoridades e ritmos de maior ou menor apelo auditivo, mas isso certamente não conduzirá a nenhum tipo de êxtase ou contemplação que ultrapasse um possível interesse momentâneo que possa manter sequer uma parcela do status conquistado pela arte da poesia em sua existência.
Algum sentido o poema há de apresentar, mesmo que seja a negação do ato de escrever, a constatação da impotência da palavra, como Un coup de dées. E esse sentido, que é uma idéia, é que intriga, instiga, provoca novas descobertas e conduz ao que Susan Sontag chamou de sentido poético. Há, portanto, acima do nenhum sentido, o escasso sentido lógico, o algum sentido, que se pode graduar até o muito sentido lógico, que é o sentido da prosa. É evidente que o excesso de significado pode destruir um poema, ou impedir sua existência, mas a ausência de algum tipo de passagem para se descortinar o mundo que a poesia criou, subvertendo, destruindo e reconstruindo o que as grosseiras palavras do dia-a-dia dizem, pode ser a pá de cal na busca do sentido poético. A existência do significado é necessária, mas na dose exata de luz que seja mínima para permitir a entrada no reino da obscuridade necessária à contemplação, e máxima para que não ofusque a sensibilidade com a obviedade desencantadora.
Assim atuam os demais elementos impuros da poesia, numerados da segunda à décima posição no decálogo de Robert Penn Warren acima citado. Sua presença no poema é imperiosa, como pequenos figurantes que não podem aparecer muito, mas que devem contribuir para o brilho dos astros principais, mesmo que seja à custa do contraste. As estrelas têm, para brilhar, necessidade da noite, e de não ficarem muito perto umas das outras .
Já que não se pode falar de poema puro, pois a própria existência do poema pressupõe impurezas, a começar de seu elemento de fabricação, pode-se falar de poesia pura, encontrada em maior ou menor grau nos discursos poéticos, veiculada pelo contraste entre elementos puros e seus antípodas coadjuvantes, catapultas grosseiras para o vôo poético. Eis o óbvio: tanto mais puro será um poema quanto maior for a quantidade de poesia pura nele encontrada. Podemos encontrar índices de pureza nos poemas, como os que enumeramos abaixo. A enumeração, entretanto, e a constatação desses elementos no discurso poético não nos conduzem a explicações dos poemas, ou à aferição de seu grau de pureza ou de sua grandeza. Sempre haverá outras possibilidades de leitura de um texto poético, e essa inesgotabilidade é condição sine qua non para sua existência.
Não obstante, atentemos para alguns “elementos de pureza” mais visíveis, ou “dizíveis”, que permitam uma abordagem menos abstrata da questão da pureza dos poemas:

· menor aproximação possível com o mundo real e entrada no mundo poético
· maior identidade possível entre forma e conteúdo
· jogo com a lógica dos paradoxos, do impossível, do imponderável
· hermetismo proveniente de pressão interior
· valor absoluto das palavras
· linguagem sintética
· purificação/depuração da realidade pelos processos imagísticos
· arquitetura formal
· contenção e purificação das emoções
· predominância do sentido poético sobre o sentido lógico


A obra poética de Carlos Drummond de Andrade apresenta um momento que se afigura como diferente dos demais ─ anteriores e posteriores. É o livro de poemas Claro enigma, publicado em 1951, contendo poemas compostos entre 1948 e 1951, cuja primeira parte, “Entre lobo e cão”, vai constituir o objeto principal de nossa investigação da poesia pura drummondiana. Talvez seja este o livro de Drummond menos elogiado pela crítica, menos conhecido pelo público, menos citado por exegetas, atacado mesmo por alguns, como veremos, mas é certamente o momento mais intrigante e instigante da obra do poeta.
Pouco antes da publicação de A Rosa do Povo (1945), Drummond já declarava sua preocupação com o trabalho sério na poesia, alertando sobre as facilidades de que alguns poetas modernistas usufruíam ao romperem com a técnica, e de certa forma repreendendo-se a si mesmo:

Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos. Infelizmente, exige-se pouco do nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao romancista...

A abdicação da “poesia-para” em favor da “poesia-poesia”, entretanto, foi mal compreendida por muitos críticos, entre os quais Emanuel de Moraes, que declarou sobre o Drummond de Claro enigma:

Uma terrível negação da arte de poetar que lhe impõe a madureza, contendo a mão do poeta e seus sortilégios de prestidigitador. (...) o seu verso ficou encasulado pelo formalismo métrico, desaparecendo o encanto de “ser apenas um compromisso claro entre o verso livre e a metrificação” (....) Demais, pode-se dizer que a sua própria imaginativa viu-se contida pelo rigorismo, por não se haver Drummond, na maioria das vezes, integralmente se adaptado aos critérios de composição tradicionais, inadequados que eram à expressão de sua poesia.

É impossível não citar aqui, entre os que menos consideram Claro enigma, o famigerado estudo de Luiz Costa Lima, intitulado “O princípio-corrosão na poesia de Carlos Drummond de Andrade”. O autor do artigo nutre uma evidente má-vontade para com esse livro de Drummond, manifestando seu desconforto com o fato de que ele se desvia totalmente do que vinha sendo feito até então na obra do poeta.
O artigo se baseia na proposta de um efeito corrosivo que permeia a poesia de Drummond desde Alguma poesia (1930), ora como advertência histórica e esperança de reconstrução, associada à idéia de luta, de corrosão ativa (corrosão-escavação), ora como cega destinação para um fim ignorado (corrosão-opacidade), e em muitos momentos imbricando-se mutuamente. A corrosão, então, para o crítico, não se confunde com derrotismo ou absenteísmo. Ao contrário, no contexto drummondiano ela aparece como a maneira de assumir a História, de se pôr com ela em relação aberta . O princípio que norteia o estudo de Costa Lima pressupõe, portanto, uma íntima convivência ou relação do poeta com a temática do real, do palpável, de uma tomada de consciência certeira da realidade.
A própria epígrafe de Claro enigma (Les événements m’ennuient, frase de Paul Valéry) começa por exercer uma ação desconcertante sobre o princípio defendido por Costa Lima, anunciando o que ele lamentaria ser uma tendência em sufocar o princípio-corrosão pela opacidade absoluta . Preocupado em defender sua hipótese corrosiva a todo custo, o crítico culpa o poeta por se desviar dela no livro em questão, acusando-o de possuir um tom amaneirado , de revestir-se de enganosa claridade , ressaltando, entretanto, que, como grande poeta, na maioria dos casos Drummond consegue conter seu resvalar para a composição menor . Não conseguiu, entretanto, segundo o crítico, deixar de tangenciar a menoridade em poemas como “Memória” e “Chamado”, citados nominalmente, e outros, de pequenez subentendida pelo rancor do crítico.
Os elementos que conduzem os poemas de Claro enigma em direção a uma maior pureza poética, no sentido que estamos considerando aqui, podem ser sintetizados na expressão de C. Lima: a repressão da forma mais sensível de revelação do Tempo e da História. É evidente que para o crítico essa mudança não agrega virtudes; ao contrário, a novidade não deixa de vir a afetar a qualidade de poemas, mesmo inteiros. Embora admita a possibilidade de esta época de maturidade do poeta marcar um despertar mais vivo de sua consciência artesanal , o autor do artigo registra o aparecimento neste momento dos primeiros poemas formalizantes de Drummond, como uma possível concessão do autor à geração 45.
Em nossa concepção, a suposta renúncia do poeta ao Modernismo constitui, ao contrário, uma adesão a um Modernismo mais arejado e trabalhado, com propostas mais ousadas e, por isso mesmo, menos óbvias. Alguns anos depois de Claro enigma, o poeta declarou, em tom irônico:

Às 398 razões de incompatibilidade entre a arte moderna e o público poder-se-ia acrescentar mais esta: o público geralmente procura o assunto, enquanto a arte moderna o esquiva ou o elimina.

Certamente a citada forma mais sensível de revelação do Tempo e da História é o que o crítico procurou ─ e não encontrou ─ na obra em questão, decepcionando-se.
O poema “Memória” ─ passará de um poema formalizante? ─ é emblemático da opinião do crítico, que apenas cita esse seu parecer sem se deter em nenhum aspecto elucidativo da afirmativa, como se o rótulo de formalizante bastasse por si para definir a qualidade do poema. Abstraindo-nos da carga pejorativa intencional do adjetivo, pensamos em formalizante como uma obra que revela um cuidado formal minucioso, que não se deixa tomar pelas facilidades do acaso ou pela adesão a circunstâncias e compromissos a que se espera que não falte o poeta.
O poema compõe-se de quatro tercetos de redondilhas menores com rima e ritmo absolutamente regulares, compondo uma unidade monolítica:

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
estas ficarão.

A unidade formal compõe-se com o sentido, aprisionando o jogo dialético das formas de negação do esquecimento, identificado com o real, que é destruição, em oposição à perpetuação da memória, do intangível, que é criação. Ao invés de princípio da corrosão, faz-se presente o princípio da metamorfose, da construção do encantamento numa esfera além do tempo e da história, e que não os tem necessariamente como ponto de partida. Temos aí a palavra depurada, a emoção contida, o afastamento da realidade para se buscar outra com as mesmas palavras utilizadas na anterior. O poema reveste-se de intensa brevidade, em que a memória contemplada é evocada em imagens de pureza, serenidade, limpidez. O poeta segue um método consciente, rigoroso, a tendência é formalista sem dúvida, mas a poesia está presente, sem corrosão.
Outro poema de Drummond execrado pelo crítico é “O chamado”, cujo assunto é o poeta Manuel Bandeira. Esse poema é comparado a “Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro”, de Sentimento do mundo (1940). A “Ode” é um belo poema sobre o poeta pernambucano, longo e emotivo, com uma apreciação bastante sentimental sobre o homem e sua poesia, repleto de referências intertextuais e metalingüísticas. O poeta homenageado é uma espécie de deus que perdoará e protegerá o mundo dos poetas que não são deuses, mundo cheio de pessoas humildes e às vezes fracas, oprimidas, que esperam poder se consolar com sua poesia, que estará sempre presente, perfeitamente inserida no tempo e na história, seguindo caminho diverso da arte de Rimbaud e Maiakovski. O poema é cheio de impurezas (no sentido “técnico” do termo) que contrastam com momentos de pura poesia.
”O chamado” de Claro enigma é o seguinte:

Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai ¾ a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparência sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

Na opinião de Costa Lima, a “Ode” tem a virtude de apresentar maior proximidade à mentação modernista, que cede lugar, em “O chamado”, à polícia estrita da palavra. Este apresentaria um debilitamento progressivo da terceira estrofe até o final, que não consegue concluir, e, como para substituir essa impossibilidade, o amaneirado se incorpora ao texto Drummondiano .
O poema anterior exibe sua qualidade na apreensão polifacética do conjunto Bandeira-tempo, possibilitada pelo fato de que a visão do poeta louvado se realiza em conjunto à visão do tempo que em comum eles pisam . Concluímos então com Costa Lima que a superioridade da “Ode” consiste no contato próximo à realidade e aos sentimentos grandiosos, que, ao invés de se debilitarem, vão adquirindo força até resvalar no divino.
O segundo Bandeira é evidentemente mais contido, mais condensado, o que o próprio crítico reconhece, mas não hesita em taxá-lo de amaneirado, o que nos parece uma contradição, a menos que o caso seja muito mais grave, de uma condensação formal tão vazia que apenas sobra lugar para o rebuscamento, o adorno.
Em confronto com a “Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro”, a depuração da linguagem em “O chamado” nos parece a realização antecipada da declaração do poeta logo após a publicação de Claro enigma:

A dificuldade inicial com que defronta o poeta de língua portuguesa, sendo esta, de natureza, analítica, e a poesia, sintética: trata-se de esconder o objeto, e não há cofre na sala; nem vão, nem subterrâneo dissimulado.

Sem querer comparar a qualidade de duas peças absolutamente distintas, produzidas pelo mesmo autor em momentos diferentes e expectativas diversas, julgamos que o Bandeira de Claro enigma, sem a dimensão mítica do Bandeira de Sentimento do mundo, é o poeta do imponderável, o antigo lume que procura achar o brilho na noite escura, busca que se identifica com a do eu-poético. O brilho não se relaciona com o poder de encantamento do poeta, que os dois sempre tiveram de sobra, mas uma direção misteriosa, sem rumo certo, a que se pode chamar destino, que unifica o poeta e o fazer poético na ambigüidade da palavra Chamado. Onde o maneirismo? Certamente na ausência do princípio-corrosão, que para Costa Lima tem comparecimento obrigatório nos melhores poemas de Drummond, como um bruxo velado e escarninho. O veredito é taxativo sobre a influência do princípio e seu gênio difícil:

Mas também zeloso ou ciumento de seus direitos, onde é calcado deita fora a grandeza da peça, substituindo-a por um tom amaneirado e qualitativamente doloroso. Mais do que a imagem acima usada, o princípio-corrosão é, entretanto, semelhante ao gênio maligno da História, a se fazer presente pelo menos nos instantes mais poderosos.

A imagem do princípio-corrosão, ainda que possa ser contestada como condição para a existência de poesia maior em Drummond, é muito útil para auxiliar na exploração do que há de poesia pura em Claro enigma. Podemos deixar a corrosão de lado a partir de agora, já que ela está intimamente ligada ao tempo e à história, e às circunstâncias e acontecimentos, que o poeta aborrece. Não se pode corroer o abstrato e o ausente.
Essa renúncia ao tempo e à história aparece na obra de Drummond como um resultado do excesso de consciência histórica, que aflige a arte e a intelectualidade ocidentais deste século, como constata Susan Sontag:

Em pouco mais de dois séculos, a consciência da história transformou a si própria de uma libertação, um abrir de portas, uma iluminação abençoada, em uma carga quase insuportável de autoconsciência.

O esvaziamento do princípio da corrosão em Claro enigma cede lugar ao que chamaremos de princípio da metamorfose, que preside o novo tempo da poesia drummondiana inaugurado nessa obra, e caracteriza a busca da pureza nesta fase. Esse princípio condutor da estética da metamorfose será examinado mais de perto, juntamente com outros elementos de afastamento da linguagem material, impregnada historicamente, na primeira parte da obra, “Entre lobo e cão”. Assim, a tentativa de purificação da linguagem em Claro enigma passa necessariamente por seu afastamento e negação da linguagem como agente de acumulação histórica. Daí a aceitação, de braços cruzados, de uma ordem outra de seres / e coisas não figuradas com que o poeta anuncia, já no primeiro poema, ‘Dissolução’, o clima de contemplação que perpassa a obra:

Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

A imagem do escurecer vai-se transformar em um símbolo, pela recorrência e persistência, na obra. A metáfora remete à idade madura do poeta ─ reforçada pela expressão Entre lobo e cão, que intitula a primeira parte: lusco-fusco, escurecer, boca da noite ─, mas amplia-se na direção de um mundo novo, para o qual o ser é guiado e não lhe resiste. É a ruptura com o tempo e a história que se anuncia:

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Os sentimentos do mundo se esvaem, e esvaziam o universo das acumulações históricas, ampliando o espaço da nova ordem, que abriga outros habitantes, entre os quais possivelmente se inclui o poeta, o que comprova a imagem da pele na escuridão. Essa curiosa combinação de metonímia e metáfora da metamorfose reúne elementos antitéticos (pele branca x noite negra) que se fundem e se desconstroem em outra dimensão: a pele, metonímia do ser, metáfora do poeta e da poesia, se funde com a escuridão, metáfora do desconhecido, e se derrete em um fim unânime.
A passagem é hesitante e encerra perdas e danos; enquanto o tempo que se vai é claro e agressivo, e portanto opressor, o que se descortina parece prometer a paz, mas como produto de destruição, de negação. A dimensão que abriga a ordem outra é tão indefinida que não comporta medição de tempo, mas é definitiva, não admite retorno.
Merece destaque a desconcertante metáfora sinestésica da cor do galo. É a própria lógica do paradoxo: a cor do galo é uma elisão do óbvio e discursivo “a cor da madrugada no momento em que o galo canta”. O momento, com sua cor, representaria o retorno impossível à claridade, ao renascimento que exprime a extinção da ordem então vigente.
Outra inversão que produz o contraste do puro com o impuro é a intratextualidade com A rosa do povo, rosa muito mais rica, cheia de encantos humanos e de libertação da consciência histórica, representativa da fase mais produtiva do poeta (conforme suas próprias palavras), e que agora é negada. Deve-se observar que o intratextual, bem como o intertextual, tem escassa recorrência em Claro enigma, exatamente pelo que esses recursos têm de compartilhamento com a cultura precedente e, portanto, pelo que contêm de impureza histórica. É evidente, aqui, o efeito de contraste do mundo impuro (rico e cheio de amor) com a busca da pureza de outra realidade.
O mesmo efeito é produzido pelo diálogo com “Vou-me embora pra Pasárgada” na referência à imaginação falsa demente. Entra aqui uma terceira dimensão no processo de negação e desconstrução. O mundo de Pasárgada, que nega o mundo real, também é negado na atual projeção. Em ambos se calam a palavra e a imaginação, e o corpo, vazio de tanta acumulação, se torna leve, sereno, tranqüilo.
A metamorfose do eu-lírico em direção à ordem outra é também uma exigência da busca de purificação da linguagem, ou seja, as palavras ordinárias devem-se despir de sua impregnação histórica para adquirirem nova existência em um mundo diferente, conforme afirma Raúl Castagnino:

Pero el poeta ─ porque es tal ─ inyecta a las palabras corrientes una virtud nueva, creadora y recreadora; y espera de ellas el servicio de que provoquen asociaciones, despierten sugestión, estimulen adivinaciones y, también ─ aunque esto sea, en cierto modo, indice situacional de un tiempo poético ─ que comuniquen una idea. Les proporciona (...) una capacidad de irradiación (...) que hace que, con escuchar o leer las palabras del poema, el receptor se encuentre, no más rico en información, con mayores conocimientos prácticos, sino tocado en lo profundo, por algo intangible, pero real y evidente.

Um dos recursos mais utilizados por Drummond para fazer desprender das palavras tudo aquilo de que elas são capazes é emparelhar conceitos e imagens, jogar com a lógica dos paradoxos, dos impossíveis, dos imponderáveis. Arturo Rivas Sainz fala do caráter dual da metamorfose:

Metamorfosis y translación son afirmaciones y negaciones simultáneas: negaciones de principios de identidad y de contradicción, porque todo lo que se metamorfosea o se traslada, al mesmo tiempo que es, puesto que se puede cambiar, tiene la posibilidad de ser ‘outra cosa’ y, portanto, la contradictoria posibilidad de ser, puesto que es, y la de no ser lo que es, puesto que puede cambiar.

Assim, são índices de metamorfose e contradição em “Dissolução” antíteses como dia / noite; vazio / vasto; pele / escuridão; agressivo espírito / paz destroçada; mil anos / cor do galo; alma / corpo.

No poema “Remissão”, o princípio da metamorfose se apresenta novamente: a poesia feita de circunstâncias é pasto dos vulgares, impureza contaminada das emoções da vida, tornada fria pela impregnação dos pesares e angústias. A poesia pura é aquela que não pretende ensinar, nem emocionar, nem informar nada; resta, portanto, o contentamento de escrever, no sentido valéryano da fabricação poética.

“Ingaia ciência” é o conhecimento que não dá prazer, a madureza que traz em si também a metamorfose, um acúmulo de história inoperante no caminho da destruição.

À negação do tempo e da história junta-se a negação do mito em “Legado”. O inferno do mundo não se curva à lira de Orfeu; o poeta não engana o mundo, o mundo não engana o poeta, seu legado se situa em sua trajetória terrestre, nos poemas de mundo, na pedra no meio do caminho.

“Confissão” é despedida daqui (cego é quem se recusa a ver). A existência foi paradoxal, Dei sem dar e beijei sem beijo. Em direção à mudança, tesouros tangíveis desaparecem, os sinais do mundo não podem ser recompostos.
Curiosa é a presença do trocadilho: Não amei bastante sequer a mim mesmo, / contudo próximo. O trocadilho é um elemento impuro, por sua carga histórica e mítica; aqui, sua utilização é elemento de contraste deste ser excessivamente humano e impuro com o impossível ser amado, isto é, o imponderável, o irreconstituível, o que é derrotado pelo mundo da técnica, conforme observa Octavio Paz:

Se o mundo como imagem se desvanece, uma nova realidade cobre toda a terra. A técnica é uma imagem tão poderosamente real ¾ visível, palpável, audível, ubíqua ¾ que a verdadeira realidade deixou de ser natural ou sobrenatural: a indústria é nossa paisagem, nosso céu e nosso inferno.

A inesperada metáfora do pássaro e do avião encena a inútil e terminada busca de pura liberdade azul e doida, que se destrói em confronto com o útil, o qual, por sua vez, será destruído ao deixar de ser útil.

Salvo aquele pássaro - vinha azul e doido -
que se esfacelou na asa do avião

Segundo Ortega y Gasset, citado por Octavio Paz , o homem deste século perdeu a imagem do futuro, com a morte de seus mitos e de suas histórias, o que implica a mutilação do passado. Conforme Paz,

Nosso tempo é o do fim da história como futuro imaginável e previsível. Reduzidos a um presente que se estreita cada vez mais, nos perguntamos: aonde vamos? Na realidade deveríamos indagar: em que tempo vivemos?

Essas indagações são lançadas de várias maneiras no poema “Perguntas em forma de cavalo-marinho”. Nosso presente sem futuro está contido no tempo sem começo nem fim. O sucateamento do passado e a imobilidade circular do presente tecnicista frente à inutilidade deixa o homem perplexo diante do fim da história como processo previsível. Assim, as perguntas feitas no poema permanecem sem resposta, à espera de que os signos em rotação possam furar o bloqueio do desconhecido
A transformação se faz presente de novo em “Os animais do presépio”, em que o eu-lírico incorpora a aparente leveza do reino animal , embutida no negrume geral, que rende homenagem ao nascimento do enviado. Ele é, afinal, o arauto da metamorfose para o desconhecido.
Em “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, o eu-lírico recorre à impureza da intertextualidade para evocar a busca da pureza absenteísta do poeta português e sua atitude protéica de vestir várias peles e de se auto-negar na diversidade dos heterônimos e na ausência de comunicação com os valores convencionais.
A existência agônica da humanidade é vista através da impassibilidade contemplativa de um bovino em “Um boi vê os homens”. A lógica, aqui, é deslocada para a visão do boi, que pertence a um outro mundo, de onde observa as impurezas humanas, entre as quais sua necessidade de expressar seus pobres sentimentos, emitindo sons absurdos e agônicos.
A contenção das emoções, a arquitetura formal e um certo hermetismo caracterizam “A tela contemplada”, poema metalingüístico sobre a criação artística. A arte contemplada no poema é de tendência formalizante, a estética do apagamento e da brancura. Os mitos criados por esse novo artista se desprendem da terra e já recuam para a noite, símbolo do mundo não terreno, onde não cabem os sentimentos.
“Ser” é um poema que escapa da crítica contundente de Costa Lima, talvez por ter como assunto algo estritamente ligado à história terrena do homem: a geração de um filho. Entretanto, percebemos claramente aqui também o princípio da metamorfose. O filho que não foi feito existe abstrato, sem carne, sem nome, e habita um mundo próprio,

(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

Um dos poemas mais emblemáticos de todo esse processo de desconstrução e de negação da linguagem em favor de sua depuração em Claro enigma é “Contemplação no banco”. O ponto de partida é o prosaico banco de jardim ou de praça, em que o coração pulverizado sente o peso da existência no mundo e aspira a escapar-lhe. O processo imagístico predominante nessa primeira estrofe é a metonímia, imagem mais pé-no-chão, mais próxima deste mundo. Contrapõe-se-lhe a metáfora da flor na segunda estrofe, que, calcária e sangüínea, pode ser um produto da humanização do espaço, produto que contém a possibilidade de ultrapassar a dimensão humana e o tempo da humanidade.
Essa flor será mentada e entoada para se opor às misérias da humanidade, e florescerá em um outro mundo, para um novo homem.
Na segunda parte, constrói-se o homem que nega, superior, a humanidade, que não pode ser chamado de irmão, porque a vida nova / se nutre de outros sais. A construção compreende uma integração de formas puras, um sublime arrolamento de contrários / enlaçados por fim. Esse homem, que se confunde com a poesia pura, afasta-se da linguagem e da arte deste mundo, do nosso vão desenho / e de nossas roucas onomatopéias, de nossos desgastados signos conspurcados pela acumulação histórica.
A terceira parte do poema tenta divisar o novo ser e a nova linguagem, que se desata do mundo em direção a uma nova existência, dissolvendo a cortina de palavras. Sua criação, entretanto, exige palavras que nunca foram inventadas, e o poeta se revela um místico sem Deus, incapaz de dizer o inefável, o que nem a literatura proporciona:

Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.

“Cantiga de enganar” é o desengano do mundo e o engano no Mundo. Mais uma vez, comparece o tema da desconstrução e da metamorfose para outra dimensão inefável e inexplicável. O tema se repete na insatisfação criadora em forma de soneto de “Oficina irritada” e na tentativa de se libertar de uma visão tecnicista do mundo em “Opaco”, que resulta na impossibilidade de apreender o além do aqui.
“Sonho de um sonho” — três sonhos superpostos: elos / de uma infindável cadeia / de mitos organizados / em derredor de um pobre eu.
O sonho, com ser sonho, comporta a lucidez, que tem a função de concretar o fluido e abstrair o maciço. O eu-lírico encontra-se receptivo, magnético, com boa recepção do mundo, possibilidades claras convergindo em sua direção. O ouro do tempo (as glórias temporais, mundanas) provoca ambição, mas dá medo. E ainda sonhava pouco, havia muito mais. Ai de mim! Que mal sonhava.
Essa ordem lúcida comportava milhares de seres que eram ao mesmo tempo um, substância essencial e desejo de unidade. O eu-lírico converte-se no centro que produz raios, que ao mesmo tempo são centros e divergem para rotas não percorridas, embora anotadas em antigos portulanos e em indizíveis trajetórias .
Num momento o sonho se confunde com a realidade. De que é formado o sonho? Não de nossos desejos, não de nossos silêncios, mas do encanto das palavras,

mas do que vigia e fulge
em cada ardente palavra
proferida sem malícia,
aberta como uma flor
se entreabre: radiosamente.

O sonho do sonho apresenta vida própria, exterior ao eu-lírico; ele pode ser apreciado e contemplado externamente. O sonho-poesia não reflete nem imita a realidade; antes, transforma-a. O espelho é o diamante, a fonte de luz; o obscuro lado da vida é terra que se recupera pelo poder da poesia, libertando as sementes da perfeição.
Observe-se que neste poema o eixo da ordem outra inverte-se da obscuridade para a claridade, mas a falsidade do sonho faz prevalecer a treva,

nas paredes degradadas,
na fumaça, na impostura,
no riso mau, na inclemência,
na fúria contra os tranqüilos,
na estreita clausura física,
no desamor à verdade,
na ausência de todo amor,
eu via, ai de mim, sentia
que o sonho era sonho, e falso.

O princípio da metamorfose faz-se presente também neste poema, mas de uma forma diferente dos demais: na busca da claridade e na prevalência da obscuridade.
O último poema desta parte objeto de nossa investigação é “Aspiração”, que condensa o desejo de poesia e de vida do poeta, em direção a uma pureza calma, sem sobressaltos de saltos da crueldade ao diamante. Emoções da vida, prazeres e sofrimentos mundanos, os sentimentos convencionais são negados em favor da aspiração maior.

Aspiro antes à fiel indiferença
mas pausada bastante para sustentar a
[vida
e, na sua indiscriminação de crueldade
[e diamante,
capaz de sugerir o fim sem a indiferença
[dos prêmios.

Os demais momentos desta obra contêm também exemplos evidentes da busca da pureza, embora, talvez, não tão concentrados como na primeira parte. ”Notícias amorosas” contém os mais belos poemas de amor da poesia de Drummond, com tudo o que contêm de impureza, satisfazendo o gosto de Luiz Costa Lima:

Como grupo distinto e de qualidade ímpar destaca-se em Claro enigma a série constituída pelos poemas sobre o amor. Não nos parecem ser ocasionais a qualidade que os acompanha e a liberação do formalismo. O amor oferece a matéria pela qual o impuro, o misturado, o confuso, o mundo ainda pode ser alcançado. O absenteísmo da fase do poeta não retira o sal incluso no amor.

Embora esses poemas de amor não constituam objeto deste estudo, convém constatar que eles não abusam do impuro, do misturado, do confuso. Antes, o amor é visto de uma perspectiva calma, sublime, serena, sem pilhérias, ironias ou arroubos. Eles contêm de pureza a despersonalização do lirismo amoroso, a depuração dos sentimentos, a atitude de contemplação que ultrapassa a fronteira entre o mundo de todo dia e o mundo criado pelo amor.
O mesmo se pode dizer dos poemas das seções restantes: “O menino e os homens”, “Selo de Minas”, “Os lábios cerrados” e “A máquina do mundo”, que contêm muito de matéria impura: memória, homens, família, cidades. Não obstante, devemos insistir que o tratamento dado à matéria é que confere ao poema sua pureza — ou ausência dela. O assunto, conforme observa A. C. Bradley, não se encontra dentro do poema, e sim fora dele:

O assunto é uma coisa; o poema — matéria e forma unidos — uma outra. Sendo assim, é certamente óbvio que o valor poético não pode residir no assunto, e sim, inteiramente, no seu oposto, o poema.

Não é nosso objetivo aqui discutir a qualidade desses poemas ─ algo indiscutível ─, mas assinalar seu teor proposital de pureza como estética escolhida e trabalhada pelo autor. Não se pode deixar de assinalar, porém, que os poemas de Claro enigma realizam no leitor o que A. C. Bradley percebe na poesia:

Sobre a melhor poesia flutua uma atmosfera de sugestão infinita. O poeta nos fala de uma coisa, mas nessa uma coisa parece estar contido o segredo de tudo. Ele disse o que queria, mas o sentido parece se esconder por detrás dele próprio, expandindo-se em algo sem fronteiras, ou somente visto como algo que, pressentimos, seria capaz de satisfazer não somente a imaginação, mas o todo de nós.

Concluindo:

Ela é espírito. Vem não sabemos de onde. Não nos falará forçada, nem nos responderá em nossa linguagem. Não é nossa serva; é nossa mestra.

Cremos, enfim, ter podido mostrar algo da pureza perseguida por Drummond em Claro enigma, e que reside em seu dualismo, em sua bipolaridade, que provoca tensão e confere força à poesia em sua metamorfose. Ela é pura no sentido de que não pretende ensinar, nem emocionar, nem informar nada; ela não se fundamenta em notícias do mundo, nem em intertextualidade. É pura no sentido de produzir um certo hermetismo essencial, provocado inicialmente pela própria negação da imagem habitual do mundo e do desejo de depuração verbal, da busca de superação da inevitável inequivalência entre o caráter analítico da linguagem usual e a necessária síntese da linguagem poética.
É evidente que algum hermetismo sempre advirá de uma poesia que busca deslocar-se de influências circunstanciais, através de um maior grau de abstracionismo que resulta em poemas de alto teor de pureza. Essa dificuldade de intelecção, entretanto, não deve prejudicar o convívio do leitor com a poesia, conforme observa Susan Sontag:

O espectador se aproximaria da arte como o faz de uma paisagem. Uma paisagem não exige sua “compreensão”, suas imputações de significado, suas angústias e suas simpatias
(...) A uma tal plenitude ideal a que o público nada pode acrescentar, análoga à relação estética com a natureza, aspira uma grande parcela da arte contemporânea — através de várias estratégias de brandura, redução, desindividualização, alogicidade.

Finalmente, tende à pureza essa poesia que constitui outro mundo, à parte, independente, completo, autônomo. Ser outra forma de vida não pressupõe que a poesia exija, para que compartilhemos de seu mundo, uma ruptura total e irreversível com o mundo real, embora exija um tipo diferente de experiência, uma imaginação contemplativa que produz em nós um resultado diferente dos que encontramos no dia-a-dia.